Ela estava com frio. Muito frio. A neve se acumulava ao seu redor - tudo o que desejava era uma lareira para se aquecer e uma bebida quente. Seus pés estavam gelados e a cauda, dormente. Olhava fixamente para o céu. Sempre ouvira falar sobre o ritual de escolha, mas nas histórias ninguém disse o quão longo e penoso era. Fazia horas que estava parada, sozinha no escuro, as roupas ritualísticas congeladas e endurecidas, o símbolos de poder ainda brilhando no escuro sob a pálida luz da lua. O ar quente exalado se condensava, fazendo pequenas nuvens ao redor. A noite estava escura e pequenos montes salpicavam o chão de branco. A jovem torcia as mãos tentando gerar algum calor. Seus lábios tremiam de frio, mas era possível notar pequenas gotas de suor molhando a base de seus cornos espiralados.
Quem sabe estivesse fazendo algo errado? Tantos anos de preparação e estudo, e os mais sábios dentre sua família de estudiosos haviam previsto que ela seria uma bruxa. Seus pais esperaram com tanta alegria por aquele momento: sua filha mais nova seguiria a tradição. Mestres do conhecimento visionários, buscando sempre reparar a mácula do corpo e da alma do Pacto, feito tanto tempo atrás por seus predecessores. A ambição corroeu o antigo império há muito caído, o egoísmo corroeu seus alicerces. Todos desconfiavam dos membros de sua raça, olhavam de esguelha, cochichavam às suas costas. Tinham fama de ladrões e violadores de tumbas (e eram realmente excepcionais nisso), bruxos de poderes estranhos que haviam feito pactos com forças além da compreensão campestre e pueril dos homens comuns. Após a queda do império seus filhos permaneceram juntos em povoados e bairros de grandes cidades, tinham sua própria cultura e tradições. Sempre se casando entre si, recebendo com alegria a volta dos pródigos e expulsando os párias dentre eles. Outros tieflings de outras comuidades sempre eram bem vindos.
Buscavam conhecimento e compreensão de todas as formas possíveis, lutando sempre contra suas naturezas - ou pelo menos aparentando fazê-lo. Tradições e generosidade eram a marca constante em suas vidas, e com Calíope não seria diferente. Mas de que tudo isso adiantava se ela estava lá, parada e com frio em silêncio esperando um chamado que não fora feito?
Lágrimas grossas rolaram nas faces escuras e a menina, quase uma moça, irrompeu em soluços angustiados. Tinha feito algo errado - falhara. O vento assobiava em seus ouvidos...
Um longo e baixo assobio... O vento gelado... Passos. Seriam realmente passos ou sua imaginação?
Eram passos. Pés leves de bailarina correndo compassadamente. Deviam estar muito longe, os passos não eram mais que impressões - poderia estar sonhando. Aos poucos o som foi aumentando. Ao invés de uma pessoa, eram várias. Pareciam dançar. O ritmo dos passos compassado, cada vez mais perto. Uma brisa especialmente gelada trouxe o som de uma risada gostosa e divertida. Pouco depois, mais risos. Pequenas vozes conversando em voz baixa em uma língua incompreensível. Risadas - leves, divertidas, convulsivas. Cada vez mais perto.
Dançavam ao seu redor, riam, gargalhavam, deixavam apenas as marcas de pés na neve. Puxavam seu vestido, jogavam bolas de neve em seu rosto, pisavam em sua cauda, davam-lhe pequenas tapas no traseiro. Fizeram-na girar. Cada vez mais rápido em turbilhão. Estava tonta. Ria. Devia ser um sonho.
Silêncio.
O vento gelado era entrecortado pelas respirações ofegantes. Pesados cascos se aproximavam. Um odor punjente de sangue e medo tomava o ar. O som de garras se arrastando era inconfundível. Pegadas minúsculas marcaram a neve dando forma a um corredor. Algo se aproximava. Os cabelos de sua nuca arrepiavam. O coração martelava. Algo se arrastava em sua direção. Aproximava-se devagar quase lânguida. A ansiedade crescia, uma pedra alojada no estômago da jovem em espectativa. Suava frio. Algo se arrastava atrás dos passos - uma cauda, talvez.
Sentiu o hálito quente em seu rosto e uma nesga de luz prateada da lua iluminou o círculo mágico. Estava cercada de pesadelos e sonhos. Pequenas criaturinhas retorcidas com aparência de madeira, outras peludas e com bocas cheias de dentes, algumas aladas com asas de morcegos e mariposas, bolas de carne ostentando uma bocarra de dentes afiados e um só olho. Pequenas
criaturinhas élficas vestidas de folhas e pétalas, pequenas humanas com asas de líbelulas. Bruxas enrrugadas e fétidas de tom esverdeado ao lado de ninfas de rara beleza com seus cabelos perfumados e enfeitados. Todos ao seu redor, em semicírculo. Uma comitiva abrindo passagem para seus senhores. Bem à frente de Calíope estava uma criatura alta e retorcida, a boca pigando
sangue e saliva, os cabelos imundos descendo até os ombros. Vestia andrajos e tinha patas de bode. Ao seu lado, um homem alto e robusto de costas retas e corpo torneado. Longos cabelos esverdeados desciam até o meio de suas costas. Ele rescindia a almíscar e âmbar, e vestia um traje de corte feito em um tecido magnífico e brilhante. Eram opostos, mas semelhantes de forma grotesca.
Abriram as bocas ao mesmo tempo e falaram em sincronismo: "Chamaste a nós? Pois viemos." A jovem assentiu com a cabeça e entoou uma velha canção, recitou palavras ancestrais e feitiços mais antigos que o tempo. As duas criaturas esperaram pacientemente. Cada um sorriu a seu modo e a beijou nos lábios. O Pacto estava feito, agora faziam parte dela.
3.2.09
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