A batalha havia sido dura. A mais dura de sua vida. Ela estava acostumada aos ferimentos, à dor e ao cheiro de morte. Sabia ver nos olhos dos homens morimbundos o rosto da morte se aproximando. Nunca tinha visto em tantos olhos o manto negro que encerra tudo. Muitos homens gemiam de dor, seus corpos lacerados, em suas bocas o gosto amargo da derrota, o fel da vergonha remexendo em suas entranhas. Muitos deles não viveriam o suficiente para ver outro amanhecer.
Apesar de odiar profundamente os cavaleiros Felden o coração de Aillah se encheu de pesar e tristeza ao contemplar homens orgulhosos destituídos de tudo... Orgulho, força, a ordem que tanto amam. A derrota fedia mais do que o sangue que empapava as roupas e as bandagens dos corpos multilados.
Mais cedo ela viu uma coruja rasgar na direção da floresta em que eles estavam acampados. Mau agouro - sempre um mau agouro. A derrota esmagadora... A partida de Leão da Montanha... Adrian infectado com um tipo de criatura grotesca... Agora seu mais querido amigo estava sob os cuidados das mãos habilidosas de Keriann. O que mais lhe doia é que não podia ajudar com uma das suas magias de cura ou providenciar uma boa-morte aos moribundos, se o fizesse certamente seria queimada e junto consigo seu filho ainda não nascido. Por isso remoia a impotência calada e engolia o orgulho aceitando ordens de um capitão qualquer.
O silêncio constrangido na floresta foi quebrado com os passos pesados de Leão da Montanha. O grande guerreiro corria e gritava sobre um ataque - o alarme fora dado. Um ataque surpresa se aproximava.
Os capitães berravam ordens. Os homens se organizavam da melhor forma que podiam. Aillah ficou para trás junto aos feridos. Tomando conta de Adrian, que já podia ficar de pé graças a uma discreta magia de cura da amiga. Ela tremia de medo. Temia por ver mais uma parede de escudos se formar, pelo exército de desmortos que se aproximava, por seu marido incosequente se dirigir alegremente para a batalha sem nem ao menos um escudo. E mais do que qualquer coisa: temia pela vida de seu filho.
A batalha foi sangrenta, difícil. Não podia conjurar magias ou se revelar e apesar disso os mortos-vivos se aproximavam cada vez mais, incansáveis. Em um esforço desesperado para fazer com que a linha avançasse entrou em combate usando apenas um bastão de madeira e as preces que tinha feito à Dama para que a protegesse.
Tudo passou em um turbilhão. Gritos, fedor de túmulo, cheiro de sangue e sangue seco em suas mãos. Sabia que se parasse morreria, então lutou. Até o limite de suas forças quando estava quase desmaiando de ânsia e exaustão... E lutou mais.
De repente... Silêncio. O clangor do aço se chocando silenciou. Os gritos de guerra deram lugar a gemidos. Tinham conseguido escapar.
Apesar de exausta e cheia de dores a jovem druidisa não descançou. As mãos ensanguentadas, cabelos revoltos e pernas tremendo. Precisava se certificar que seus amigos estavam bem, depois de tanto tempo juntos e de tudo que haviam passado um apoiando o outro ela os sentia como extensões de si mesma. Se preocupava com eles e gostava da sua companhia, apesar de nunca demonstrar. Seu coração se condoía mesmo meses após o jovem Fox se afastar. E mais do que a qualquer um, queria achar seu marido.
O homem a quem jurara amor, com quem havia compartilhado os momentos mais difíceis da sua vida. Ele havia segurado sua mão enquanto Keriann tentava desesperadamente salvar sua vida e a de seu filho. O intrépido e galante herói sujo de fuligem que a resgatou, como se fosse uma donzela em perigo, do âmago da fortaleza de Kelgroth. E há pouco fora capaz de enfrentar um exército para resgatá-la (apesar de não precisar de resgate).
Seu coração inundou de dor ao ver inerte o guerreiro Leão da Montanha. O corpo retorcido em um ângulo estranho, visivelmente fora vítima de uma magia mortal. A druidisa suspirou fundo e com os olhos repletos de lágrimas fez uma prece muda para que A Dama o recebesse de braços abertos. Quem sabe Ela ainda poderia conceder-lhe a dádiva de uma nova chance. Deixou o corpo aos cuidados do mago elfo Aennarion e seguiu.
Era estranho... Sentia cada vez mais apreensão. Todas as vezes em que tinham se envolvido em batalhas e lutas Lyon sempre a achava logo em seguida. Normalmente muito machucado, outras vezes mal conseguindo se manter de pé, mas sempre estava lá com um sorriso no rosto e braços abertos para recebê-la em um abraço e perguntar lhe como estava. Dessa vez não... Longos minutos haviam se passado e nem mesmo o som da voz alegre dele fora ouvida. Ela mal podia
respirar de apreensão. Alguma coisa estava errada.
Estava pálida, as mãos tremiam quando ela finalmente o viu. Caído no chão, um boneco de trapos ensanguentado. O coração dela falhou por um momento trespassado por uma dor lancinante. Não sentia as pernas ou enxergava qualquer coisa ao seu redor. Simplesmente correu. Correu para os braços inertes e para a boca silenciosa do marido. Jogou-se de joelhos ao seu lado. Um grito de dor ecoou pela floresta úmida de sangue. Não podia acreditar que ele estava morto. As lágrimas grossas escorriam em profusão, não era momento de orgulho ou preocupações. Era um
momento de dor.
A dor era tão intensa que sentiu seus sentidos falharem, não conseguia respirar. Suas mãos geladas tocavam o peito de seu marido ansiando por uma batida de seu coração, apenas um movimento de respiração... Mas nada. Ele estava imóvel em sua morte. Respouso dos guerreiros. As mãos delicadas limparam o sangue do belo rosto sujo do marido. A barba por fazer que tanto
gostava...Jamais roçaria em seu rosto novamente. Acariciava seus cabelos emaranhados e molhados de suor. Soltou gentilmente as espadas dos punhos cerrados do guerreiro, e fê-las repousar ao lado dele - partes de sua alma, extensões dos braços outrora cheios de vida e calor, seriam queimadas junto com ele. Ela se inclinou e deu o último beijo nos lábios brancos do seu
companheiro.
Seus companheiros e irmãos se jutaram em um pequeno círculo ao seu redor, todos com expressões de pesar. Os homens amontoavam-se em um silêncio triste e embaraçado vendo
aquela mulher diminuta e tão delicada com uma expressão de dor profunda. "Tão jovem e ainda
por cima grávida" - eram as palavras sussurradas às suas costas. Mais pessoas se aglomeravam para ver o que tinha acontecido: O filho de Drakkan, morto.
Não poderia trazê-lo de volta, perguntava Keriann, enquanto caminhavam. Não, não poderia. Ele pedira, meses atrás, que não o fizesse. Além do mais, temia que ele não voltasse como antes - lembrava amargamente do que acontecera com Fox. Não percebeu o que a arqueira falou depois - nem importava. As palavras que queria ouvir agora eram as de seu marido, dizendo que a amava. Nunca imaginou que sentiria tanta falta delas.
23.9.08
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2 comentários:
Pois é, batalhas são assim mesmo. Mais se perde do que se ganha.
E NESSA em especial, muito foi perdido, não?
Muito bom o texto, fia. Cenas especiais contadas sob pontos de vistas definidos sempre dão um tom especial. :)
Bom conto, bem escrito. Não posso dizer muito mais que isso. =/
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